Histórias de verão: a Negra
Luis Fernando Verissimo
Para começar, a história daquele homem que levou a sério a ideia de que carregamos a nossa morte conosco e passou a agir como se sua morte o acompanhasse – literalmente. Dormia numa borda da cama, quase caindo, para que sua morte se sentisse confortável dormindo ao seu lado. Nos restaurantes, sempre pedia um lugar a mais, para a sua morte. Não pedia outro prato e outra bebida para sua morte, mas estava implícito que ela podia se servir no seu prato e do seu copo. Começara tratando sua morte formalmente. “Madame”, “a senhora”, etc. com o tempo, passara a chama-la de “você”, depois de “querida”, até de “bem” e de “amor”. Formavam um casal. A morte era sua companheira inseparável.
Mas a familiaridade não gerara o descaso, como acontece com tantos casais. Mesmo depois de anos de convívio, ele continuava um cavalheiro, solicito e carinhoso com sua morte. Dava um passo para trás, indicando com um gesto que ela fosse na frente – “primeiro você, coração” – sempre que iam passar por uma porta. E segura a porta para ela. Não foram poucas as vezes em que o flagramos sorrindo para o lado, para a sua morte. Olhando para ver se ela entendera a piada, se estava bem, se queria ir para casa. Um companheiro perfeito. Não sabemos se, nos seus momentos íntimos, jurava fidelidade à sua morte. Se a chamava de “Negrinha” e prometia jamais desejar a morte de outro. O fato é que sua morte não podia se queixar dele e de como era tratada. E mesmo assim ela o matou. Era da sua natureza, é o que ele provavelmente diria, carinhosamente, da sua companheira de toda a vida. Se não o tivesse matado, não seria sua morte. Só podia terminar assim. Sempre terminava assim.
Na palma da sua mão
E tem a história do cara que foi consultar uma quiromante, para que ela lesse seu destino na palma da sua mão. Queria saber, acima de tudo, como e quando seria a sua morte. Queria saber seu futuro para poder evitá-lo, pois tinha um plano para ludibriar a Morte.
A quiromante sorriu.
- Ninguém pode mudar seu destino - disse.
- Eu posso - disse o homem.
A quiromante continuou a sorrir, alisando a palma da mão dele com a sua.
- Como você pretende ludibriar a Morte?
- Deixa comigo. Só me diga como e quando ela virá.
- O que está na palma da sua mão não pode ser mudado. Se eu lhe disser que você vai morrer em minutos, você vai morrer em minutos. Ninguém pode negociar com a Morte.
- Sabendo como e quando Ela virá, pode.
- Mas a Morte tem mil disfarces. Vem de várias formas, das maneiras mais inesperadas. Não pode ser evitada.
- Só me diga o que você vê na palma da minha mão e deixe o resto comigo.
Então a quiromante examinou a palma da mão do homem e parou de sorrir. Disse:
- Você vai morrer em minutos.
- Onde você viu isso? - perguntou o homem.
- Aqui - disse a quiromante, cruzando a linha da vida do homem com a sua unha envenenada.
E o homem morreu em minutos. A Morte tem mil disfarces.
Domingo, 6 de fevereiro de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.